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Tropeirismo em Santa Catarina

Tropeirismo em Santa Catarina

Já falamos que o Tropeirismo se originou do trabalho de condução do gado solto nos pastos após a destruição das Reduções Jesuíticas. Reproduzindo-se livremente, esses rebanhos estavam à disposição de quem os capturasse.

Descobriu-se então que esse gado poderia ser vendido na região das minas e na sorte do Rio de Janeiro, onde faltavam alimentos.

Mas havia empecilhos, como a falta de estradas no início do século XVIII, e para que o gado saísse do Rio Grande do Sul era preciso abrir caminhos. Assim surgiu o Caminho dos Conventos, ou Caminho das Tropas, por onde o gado seguia por trilhas litorâneas até a cidade de Laguna. Depois, os animais eram embarcados em navios rumo ao litoral de São Vicente. E daí é que o gado era conduzido às regiões de consumo.

Já o Caminho das Tropas propriamente dito, mais econômico, por evitar as despesas do transporte marítimo,e todo feito por terra, surgiu mais tarde, seguindo o curso do Rio Araranguá, por caminhos abertos na mata e depois rumo ao planalto de Lages. Daí era possível conduzir esse gado aos Campos de Curitiba e até Sorocaba, em São Paulo. Com mais uma alteração, esse caminho passou a atravessar os campos de Vacaria e atingir Lages. Os tropeiros passavam suas tropas pela Serra do Rio do Rastro, que liga o litoral catarinense com o planalto, cidade de São Joaquim, e até hoje impressiona pelas curvas e despenhadeiros.

Tropeirismo em Santa Catarina

Extenuados pela viagem, os tropeiros paravam, geralmente ao fim do dia, nos “pousos”, montando acampamento e acendendo uma fogueira para espantar as feras e em torno da qual preparavam os alimentos e contavam histórias. Em 1858 o médico alemão Robert Avé-Lallemant rumou a Lages, acompanhado por um guia, ambos montados em cavalos fortes e seguidos por um burro cargueiro. Penetrando na floresta, observaram um grande silêncio – o silêncio da mata virgem–, e depois encontraram um grupo de homens que buscava carvão na região e ofereceu-lhes abrigo em um rancho feito de varas cobertas de folhas de palmeiras.

Tropeirismo em Santa Catarina“Demos aos nossos animais taquara verde ou cará, bambu verde e milho que havíamos trazido”,

relata Avé-Lallemant, e segue:

“Para nós próprios chamejava uma clara fogueira perto do rancho, assava-se carne seca num espeto e preparava-se café”.

“… A carne seca com farinha foi comida com a mão e o café tomado no copo de chifre, feito de chifre de gado. Depois, cada um arrumou seus arreios, os animais para protegê-los das onças foram trazidos para bem perto do rancho e ao nosso lado estavam as pistolas bem carregadas, espingardas e facas. Certamente, se as onças e bugres se atravessassem entre nós, se dariam mal! …”

“… a nossa fogueira foi conservada, ao passo que nós, cada um por sua vez, dormíamos excelentemente. E quando rompeu a manhã de 09 de junho, estava bem disposto todo o grupo de viajantes, inclusive cavalos e burros. Com o resto do jantar fizemos o pequeno almoço (café da manhã) e prosseguimos…”

Um pouso de tropeiros bem próximo de uma fonte de águas termais tem hoje um nome que descreve seu passado histórico: Termas do Rio do Pouso, onde o Rio Tubarão compõe uma linda paisagem com pedras. HC

Fonte: “Santa Catarina de Todas As Gentes”, de Neide Almeida Fiori e Ivone Regina Lunardon.
Zélia Maria Nascimento Sell é jornalista e pesquisadora de Curitiba, Paraná.

Artigo publicado na edição número 74!

 


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