Quem transita pelas ruas do centro de Florianópolis encontra mulheres e crianças Guarani, sentadas nas calçadas, vendendo artesanatos e plantas. A presença dessas pessoas raramente é notada pelos passantes.
É como se elas fossem invisíveis, ou apenas mais uma massa de pedintes que engrossam diariamente as estatísticas de pessoas que vivem nas ruas das capitais do Brasil. O quanto essa invisibilidade é sintomática da forma como geralmente se lida com a presença das populações indígenas no Brasil é algo que merece reflexão. Durante muito tempo, a elas foi negado um passado, o que significa dizer, uma experiência comum que lhes assegurasse identidade, organização e faculdade de guiar seus próprios destinos.
Por serem, os indivíduos que a compõem, raramente vistos como agentes, as populações indígenas geralmente foram apresentadas pela historiografia como sujeitadas à ação dos chamados brancos. Na outra extremidade da relação mantida com os povos indígenas encontramos as representações negativas de preguiçosos e aculturados. A atitude não difere muito da anterior, pois mantém a recusa em reconhecê-los como sujeitos, quando não, a recusa em reconhecer sua própria humanidade.
A diferença é que, nesse caso, parte-se para uma ação de violência, justificada pela lógica de que não compartilham mais as mesmas práticas a eles atribuídas a partir de um olhar etnocêntrico. Atualmente, os povos indígenas têm ocupado as ruas com manifestações políticas, têm reivindicado seus direitos em ações coletivas, exigido o reconhecimento das terras confiscadas e proclamado o direito de reconhecimento de sua cidadania.
Ao se mobilizarem, as reivindicações vão desde o direito à ocupação de territórios um dia habitados por seus ancestrais até o direito de acesso a uma educação escolar ministrada em sua própria língua e respeitando sua cultura. Neste dossiê, buscamos apresentar os avanços da pesquisa efetuada por historiadores, em Santa Catarina, na área de história indígena.
Como poderá ser conferido pelos leitores, a história desses povos está entrelaçada à própria história catarinense e brasileira, ambas marcadas com o signo da violência e da exclusão, mas também da luta e da resistência. Os artigos selecionados buscam contemplar a trajetória dos povos indígenas em diversos momentos da história catarinense. Rafael Benassi dos Santos convida o leitor a fazer uma viagem no tempo para acompanhar os desdobramentos das ações em prol da educação indígena. Jaisson Teixeira Lino promove uma aventura pelo universo da arqueologia e revela a presença dos Guarani no litoral.
Tamires Tavares Pacheco e Luísa Tombini Wittmann destacam os contatos, geralmente traumáticos, estabelecidos com os Xokleng no vale do Itajai. Clóvis Antônio Brighenti e Carina Santos de Almeida exploram a violência e espionagem contra os Kaingang durante o século XX. Esperamos que o dossiê cative os leitores, não pelo exótico, mas, como anunciado pelo poeta, pela capacidade de revelar uma história que sempre esteve oculta, quando deveria ser evidenciada.
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